quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Religião, religiosidade e educação

Por Jurema Nunes e Monica Valéria
publicado no site www.acordacultura.org.br

O sagrado constitui uma categoria universal da experiência humana. Uma das formas de relacionar-se com essa categoria é através do que conhecemos por religião. A religião e a noção de religiosidade estão entre nós desde sempre. A experiência religiosa, dizem alguns, está na base da ação social e dá-lhe sentido. Religião seria o resultado do que somos capazes de registrar em relação ao inefável e religiosidade seria a disposição do indivíduo para integrar-se às coisas sagradas. Advindo do latim, re-ligare, pode ser um conjunto de práticas e crenças relacionadas com o transcendental, que tem como elementos derivativos os rituais, os códigos e as leis morais. Enquanto algumas encontram a base de tais códigos e leis nos dogmas, outras têm preceitos e interdições.

A religião dá-nos, através dos ritos, mesmo que mínimos, uma noção de segurança - um como se - que transforma o mundo ameaçador e enigmático - como diria Bronislaw Malinowski (1884-1942), um dos fundadores da antropologia social. A religião é um fenômeno social e individual, inextricavelmente ligado a outros aspectos da cultura e da sociedade. Um exemplo disso é o fato de que, embora hoje, em África, as religiões tradicionais representem uma porcentagem menor que segmentos cristãos e islâmicos, ainda persiste a ideia de que “nascer, casar e morrer” tenha que ser permeado por tais tradições de alguma forma.

O cerne das religiões tradicionais do continente africano é, ao que parece, a criatividade e a emoção – importante legado para nossa afro-brasilidade. Afirma-se que a religiosidade tradicional de África possui uma interação muito flexível e fluida no ambiente institucional no qual opera. Os africanos em diáspora foram capazes de criar e recriar expressões de sua religiosidade tradicional em várias situações, reagindo a mudanças, perigos e possibilidades. A religião não está longe da ideia de oficio, tendo seu foco central na ação. Parte de uma estratégia de sobrevivência, de estar no mundo, de corporeidade no chão que se pisa, servindo a fins práticos, imediatos ou remotos, sociais ou individuais. O que não exclui possibilidades de contato com o transcendental. Velhos significados são remontados em novas formas e sentidos possíveis em cada realidade. Essa transformação foi fundamental na desenvolvimento da maioria das manifestações religiosas das Américas. Sendo primordialmente voltada para o grupo, as experiências coletivas e individuais são expressas na vivência da comunidade religiosa.

Nei Lopes afirma: “embora as religiões negro-africanas tenham suas peculiaridades, todas comungam de uma ideia central, segundo a qual a vontade do ser supremo manifesta-se por meio de heróis fundadores, entre eles vivos ou espíritos dos antepassados. Há, portanto, uma ontologia negro-africana, uma estrutura religiosa, embora os africanos não tivessem durante muito tempo um termo equivalente ao termo ocidental religião”.

Um vasto continente, cuja população “modelou” o outro – oponente ou parceiro – de tal maneira que não somente transformou o outro, mas também se adaptou, impregnando o conhecimento da noção de relatio, uma síntese criativa, coração e expressão da experiência religiosa africana e afro-americana. A ontologia que se configura explica o significado da vida, enquanto corpo e matéria, a criação do mundo, as relações entre os seres visíveis e invisíveis. Há a busca por explicar o permanente combate e recorrente inter-relação entre o bem e o mal, a vida e a morte, saúde e doença, prazer e dor, contentamento e sofrimento, fartura e escassez... saberes e fazeres expressados e mantidos através da oralidade, por gerações. E esta ação pode aquecer geração ainda não nascida se utilizarmos os aprendizados e debates sobre tal legado como subsídio educativo, jamais meramente ilustrativo, mas constituinte de nossa história e cultura.

Precisamos conhecer como se processa a cosmovisão “africana” buscando suas dimensões, e sua recriação no Brasil. Esse intento responde à renovação curricular que visa fortalecer o reconhecimento positivo das contribuições dos negros à sociedade brasileira.

Aproximadamente quatro milhões de africanos escravizados chegaram aos nossos portos em sucessivas levas, trazendo anseios, crenças e muito conhecimento. Trouxeram consigo o cabedal de memórias, tudo que fica além do esquecimento, algo que constrói e vivifica. Muitos sucumbiram, mas todos provaram sua resiliência cotidianamente. Aquele que resistiu, o fez em corpo, verbo, som e gesto. Corpo enquanto lugar, que recebe o eterno e o realiza.

As tradições aqui mantidas resistiram pela força deste corpo que se fez verbo pelo poder que a palavra traz. Mito reiterado no calor dos cânticos, no frescor das ervas, no cozimento das oferendas, no destemor dos combates.

O conceito de ancestralidade mítica compreende um tempo numa composição de eventos que aconteceram, estão acontecendo ou acontecerão num futuro próximo. Para fazer sentido, o tempo tem de ser experimentado, assim se tornando real. É através da sociedade, presente e passada, que ele é vivenciado. Tal sociedade pode ser a de hoje, mas pode ser e ter a mesma potência àquela de muitas gerações anteriores. Cada grupo, cada nação, cada casa religiosa tem um história, que se move do instante em que se vive para o enorme passado, uma história orquestrada pelo mito.

Há inumeráveis mitos no continente africano que narram a criação do universo, a origem do homem. O passado não está perdido, é lugar cheio de atividades e acontecimentos. Aqui o lugar corpo-memória se funde à pedagogia do cotidiano – intermediando as relações com o Todo. Aqui, no Novo Mundo, homens e mulheres lembraram-se de suas tradições ancestrais o que estava mais próximo de seus sentimentos e mentes. Como os poderes cósmicos permeiam a vida, o gênero humano escolhe manter tais poderes, destruí-los ou enfraquecê-los por meio de sua experiência. O ato ritualístico nesta perspectiva é validado no aqui-e-agora, na temporalidade do instante, porque tal momento contém o universo.

Conhecer, aprender e respeitar as expressões culturais negras
Em conversas com professores pode-se observar que o tema religiosidade é o mais difícil de ser trabalhado. Isto ocorre pelas vivências, em sua maioria constrangedoras, acontecidas em suas vidas pessoais e profissionais no espaço escolar. Apesar de discriminada, a religião de matriz africana é assunto na sala de aula. Para exemplificar, seguem dois relatos colhidos em capacitações do Projeto “A Cor da Cultura”, em 2006:

Uma professora nos conta que um aluno cita que nas redondezas da escola existe um “centro de macumba” que toca nos fins de semana a noite toda e, como ele é vizinho, já aprendeu todas as músicas. Neste momento começa um reboliço na sala com comentários contra ao Centro Espírita e uma defesa de alguns participantes (alunos ogãs e rodantes) já se pronunciam, em defesa do espaço religioso cantando os “pontos” que conhecem. Uns afirmam que aprenderam de tanto ouvir e outros admitem que frequentam o lugar.

A presença de um iniciado ao culto da tradição dos orixás, iaô, em sala de aula logo após o processo religioso, trouxe uma confusão para a turma. O desrespeito ao colega que utilizava seus aparatos (fios de conta e cabeça coberta) foi apresentado através das risadas e apelidos depreciativos ao “macumbeiro”.

Situações como as descritas acima possibilitam ao professor relacionar o momento com as re-significações que a Lei 10639/03 permite e determina a inclusão da discussão de forma elucidativa, através de novas informações alcançadas em pesquisas na área envolvida, no material do Kit do Projeto A Cor da Cultura e outras fontes. Desse modo, o alcance da pesquisa envolverá a toda comunidade escolar e, assim, abordar o tema e outros, que virão compor a discussão sobre a presença da população de origem africana no Brasil.

A partir dos anos 90, fruto de reivindicações do movimento negro, vimos uma nova abordagem sob a égide da Lei. Essa mudança paulatina apontava para a diversidade em termos de proposta curricular. Aponta-se para a importância de conhecer, aprender e respeitar as expressões culturais negras, entre elas a religiosidade. Valorizar tais manifestações possibilita compreender os diferentes modos de viver, conviver, pensar e ser no mundo. O desafio está em ampliar o olhar dos docentes e, consequentemente, dos discentes - para que haja uma real mudança nas concepções engessadas que o racismo e as pré-concepções nos legaram. Estamos numa forja, aprendendo. A escola brasileira não pode mais silenciar–se a esse saber, negando aos alunos tal conhecimento, que evoca a re-criação e a capacidade de resiliência que nos forma. Numa realidade como a nossa, isso é mais que válido.

Sabemos que essas tradições, tão importantes quanto qualquer outra, foram ditas como inferiores ou reduzidas a pecha de crendices, e ainda hoje precisamos de uma lei que imponha a necessidade de ensinar tal saber nas escolas. Esse é, na justa medida, o desafio da educação para diversidade. Uma valorização da história e ancestralidade africana e de suas manifestações no Brasil, não a partir de um “exotismo”, mas a partir do respeito e de um olhar sobre nós mesmos, nossa inteireza. A invibilização da portentosa herança africana em terras brasileiras foi cosida em racismos, pré-concepções e conseqüente falta de conhecimento, e isto foi feito por anos a fio. Tal ação não condiz com as propostas contidas na LDB, mas se constitui um real desafio. Entretanto, para alguns autores, é possível e necessário, confiar nos caminhos da ancestralidade como forma de apropriação pedagógica para compartilhar ensinamentos da cosmovisão africana em instituições de educação formal.

Referências bibliográficas
ARMSTRONG, K. Breve História do Mito. São Paulo: Companhia das Letras. 2005.
BARROS, José Flávio Pessoa. Olubajé – o banquete do rei – uma introdução à música sacra afro-brasileira. Rio de Janeiro: INTERCON-UERJ. 1999
BEEK Van, Walter E. A. & THOMPSON, Dennis. Religion in Africa. New Hampshire: Heinemann, 1998.
BENISTE, José. Òrun-Àiyé – o encontro de dois mundos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
BOTAS, Paulo. Carne do sagrado – Edun Ara – devaneios sobre a espiritualidade dos Orixás. Petrópolis: Vozes, 1996.
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Volume I. Rio de Janeiro: Vozes, 1991.
CAMPBELL, Joseph. Mitologia Primitiva. São Paulo: Pallas Athena. 1992.
Eliade, Mircea & Coliano, Ioan P. Dicionário das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1994.
JUNG, C.G. (2004) O Eu e o Inconsciente. Obras Completas, Vol. VII/1. Petrópolis: Vozes, 2004.
Lody, Raul. O povo de Santo. Rio de Janeiro: Pallas, 1995.
Mbiti, John. Religião africana e filosofia. London: Heinemann, 1971.
LOPES, Nei. Kitabu – o livro do saber e do espírito negro-africano. Rio de Janeiro: SENAC, 2005.
MURPHY, Joseph. Santeria – african spirtits in América. Boston: Beacon Press, 1993.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Cia das Letras, 2001.
RISÉRIO, Antonio. Oriki Orixá. São Paulo: Perspectiva, 1996.
Santos, Juana Elbein dos. Os nagô e a morte. Tese de Mestrado defendida para Paris IV. Petrópolis: Vozes, 1986.
SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade – a forma social negro-brasileira. Rio de Janeiro, Petrópolis: Vozes, 1988.
SOMÉ, SOBONFU. O espírito da intimidade. São Paulo: Odysseus, 2003.
Verger, Pierre. Orixás – na África e no Brasil. Salvador: Corrupio, 1990.
VERGER, Pierre. Artigos – Tomo I. Salvador: Corrupio, 1992.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Pequeno Exercício Autobiográfico

Alguns passos de minha jornada até agora:
Até 1992, a vida me proporcionou a escolha de um caminho que batia em uníssono com meu coração, ao invés de me dedicar a um trabalho mais tradicional, optei e me orgulho disso, por vivenciar os aprendizados nas areas de história, ciências sociais, filosofia, psicologia e antropologia. Neste período também estudei astrologia e entrei em contato com a psicologia analítica de Carl Gustav Jung.
Em 1993, comecei a conhecer mais e mais das religiões e mitologias comparadas, tema que amo desde criança, no Pro-Eper da Uerj, do qual fazia parte com companheiros que muito me ensinaram.
Entre 1994 e 1998, vivências na área de história, pesquisa e educação, comecei então a conhecer mais sobre a temática da negritude e da história afro-brasileira e africana.

Entre 1998 e 2004, viagens que proporcionaram uma outra visão de mundo e muitas alegrias.

No período das viagens, quando na Escócia, "encontrei" em arquivos da Universidade de Glasgow documentações e cartas sobre Olaudah Equiano - que escreveu sua autobiografia na Londres de 1789 e participou do movimento abolicionista internacional. Dessa "paixão" surgiu uma dissertação de mestrado em História e meu interesse pela escrita de si. Estudar este grande homem e autobiografia foi uma excelente oportunidade.

Em 2000, a aventura maior e mais bela da minha existência, conceber um filho, e trazer-lhe amorosamente ao mundo.

Em 2005, finalizei o curso de Arteterapia, que havia começado em 2003 no Ateliê de Lígia Diniz. Num período curto em 1999, já tinha entrado em contato com terapia artística, mas a vida só me permitiu aprofundar o que seria a grande transformação do meu caminho até então, em 2002. Sou membro profissional da Associação de Arteterapia do Rio de Janeiro desde 2006.

Entre 2006 e 2007, aprendizados profundos com pessoas, instituições e outras paragens, fui então proprietária de um centro cultural chamado Recordatório com mais 3 mulheres. Passou e continuei meu caminho. Mais simples e mais livre. Quando vamos ao fundo do poço é a oportunidade de Re-tornar, mais integrados as Ser que Somos.

Em Arteterapia tenho desenvolvido a passos lentos, o "artegrafar-se", que é um exercício autobiográfico na tentativa de perscrutar o Ser Essencial.

Meu trabalho hoje consiste em atendimento individual em dois ateliês; aulas sobre algumas temáticas em ateliês de arteterapia. Participação em projetos diversos nos quais congrego a experiência de vida, os conhecimentos acadêmicos, arte e arteterapia. Se tudo dá certo, é uma mistura interessante de "borogodó" com conhecimento. Também ofereço oficinas em 4 ou 6 encontros, nas mais diferentes temáticas... muitas cores me atraem, mas meu objetivo é apreender e viver o que Nilson Nunes, bom amigo, falou do meu ofício, ser uma "devolvedora de Eus". Tento tentado, com afeto e atenção.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Curriculum Vitae

Mônica Valéria Silva de Queiroz Vargas


Arteterapeuta credenciada à AARJ - reg.213 - atuante desde 2005. Trabalhando em ateliê próprio desde 2011. Coordenadora do Bharani Arte Terapias e Vida
Co-Coordenadora do Têmenos Arteterapia
Facilitadora do grupo Lobas Compartilhando Saberes, com Jane Rocha e Nany Vieira

FORMAÇÃO

Formação em Terapia Psico-Corporal em Análise Psico-Orgânica CEBRAFAPO-EFAPO
Formação em Arteterapia com Lígia Diniz
Facilitadora em SoulCollage(r)
Mestre em Reiki
Formação Continuada em Aromaterapia
Bacharelado e Licenciatura em História – Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Formada em 2003.


Pós Graduação:
Mestrado em História – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – 2004-2006; “Autobiografia de um ‘Africano Ilustrado’ – um estudo de caso - Olaudah Equiano (1745-1797)” – Pesquisa direcionada para escrita de si, gênesis do Eu no século XVIII; Pesquisa e estudo sobre o próprio Olaudah Equiano; estudos sobre categorias de diferença na Grã-Bretanha do século XVIII; Ilustração Britânica etc.

Outros estudos
Calatonia com Nara Santonieri
Leitura Oracular, com várias mestras, atualmente Maria Lalla Aché

EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS:

Atuante em Ateliê, sublocando horários, desde 2006.
Atuante em Ateliê próprio desde 2011

Cor da Cultura II - Centro de Estudos Afro-Asiáticos e Canal Futura - participação como formadora. Oficinas pedagógicas sobre a importância da Lei 10639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todo o território Nacional.

Docente do Curso Formação de Terapeutas em Arteterapia do Incorporar-te: Espaço Terapêutico Corpo Arte;
Docente do Curso Arteterapia e Envelhecimento: O Cuidado com o Idoso do Incorporar-te: Espaço Terapêutico Corpo Arte;
Docente no Ateliê Artemísia;
Docente no Ateliê de Lígia Diniz;
Autora e Coordenadora Curso Cultura e Religiosidade: História das Religiões desde 2007;
Atendimentos em Clínica Arteterapêutica e Ateliês desde 2008;
Facilitadora de Oficinas Arteterapêuticas e Pedagógicas em ambientes públicos e privado desde 2006.
Facilitadora do Projeto Conversas Terapêuticas desde 2008;
Criação e produção artesanal de colagens desde 2004.

Palestras e Oficinas em Entidades Públicas e Privadas sobre Arteterapia, Arte e Arte do Ser, História e Cultura Afro Brasileira e Africana.

Cursos livres sobre Arteterapia e outras temáticas.

Palestras e cursos livres na área de história das religiões, arteterapia e educação, arteterapia e envelhecimento, entre outras temáticas.

Cruzada do Menor - Trabalho voluntário em Arteterapia no atendimento a idosos, adolescentes e famílias.
Projeto Candelária - Trabalho voluntário em Arteterapia com crianças (entre 8 e 12 anos) em equipe multiprofissional.

Instituto Innatus
Facilitadora de Oficinas de História da Arte e Apreciação do Belo
Trabalho dirigido à população do entorno do COMPERJ-Petrobras, em Itaboraí.
Facilitação de oficinas no Ateliê Lígia Diniz;

MDS-IBAM
Tutoria – Treinamento e Capacitação – EAD (plataforma Moodle);
Capacitação para implementação do SUAS e do Bolsa Família.

Membro de corpo-diretor de Centro Cultural – Recordatório – Cultura, Educação e Artes
Mobilização e facilitação de oficinas; atividades de organização, produção de projetos e relatórios, finanças, relações públicas. Set 2006 – Out 2007.

Capacitadora do Projeto “A Cor da Cultura” - Parceria entre diversas entidades que visa formar professores da rede pública para cumprimento da lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira. Formação de professores através de oficinas pedagógicas para introdução da temática e o conhecimento sobre a lei.

Colégio de Aplicação da UERJ

Professora substituta de História – Ensino Fundamental.

Professora particular de História – ensino fundamental e médio - 2003 – atual.

Instrutora de Inglês até nível High Intermediate – Rio de Janeiro e São Paulo
1997 – 2008 –

Programa de Estudos e Pesquisas das Religiões – PRO-EPER-UERJ
Contrato temporário; Pesquisa; produção de textos e relatórios; assistente de organização de eventos; atendimento ao público; captação de recursos; criação de temas e palestras para eventos ligados ao tema central do programa de pesquisas. Coordenador entre 1994/1995 Dr José F. Pessoa de Barros; 1996 – Dra Zeni Rosendahl; 1996-1997 Dra Aureanice de Melo Correa.
1994/97

ESTÁGIOS E BOLSAS DE ESTUDO

Estágio UVA - Universidade Veiga de Almeida
Psicologia da Infância e Adolescência
Supervisão: Célia Anselmé. Trabalho em grupo direcionado para pesquisa institucional e para o distúrbio de aprendizagem dislexia (disponível: //psicologiaceliaanselme.webng.com).

Bolsa CAPES de Mestrado
Orientadora de pesquisa Dra Lúcia Guimarães.
Outubro de 2004 até Outubro de 2006.

Museu do Índio
Departamento de Imagens.
Coordenadora Ana Paixão.

Fundação Ford/UERJ/URFJ – Iniciação Científica
Pesquisa “As estratégias de combate à discriminação racial no Brasil: perspectivas e dilemas da ‘ação-afirmativa’ – do Macro-Projeto “Cor e Educação”.
Coordenadora Márcia Contins.

Programa de Estudos e Pesquisas das Religiões – Auxiliar de Pesquisa
Projeto “Irmandade da Boa Morte: gênero e resistência subjetiva frente ao sistema mundo” – coordenadora Aureanice Correa.
Cachoeira - Bahia

APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS EM CONGRESSOS E EVENTOS – ARTETERAPIA, HISTÓRIA, FILOSOFIA ETC:

Desde 2008 participo de todos os eventos em Arteterapia e Terapia Corporal que considero importantes e que tenho possibilidade de estar

Encontros temáticos em Arteterapia – Arteterapia e Animação – conceitos e propostas: A Criança Divina e o Herói unidos em Kiriku
Palestra sobre leitura imagética, arquetípia e outras temáticas.

Incorporar-te: Espaço Terapêutico Corpo Arte
Agosto de 2009.

VIII Congresso Brasileiro de Arteterapia
Arteterapia: conhecer e reconhecer. Facilitadora da Oficina “Grafia de Si através da Arte”.Novembro de 2008.

I Encontro de Arte-terapeutas do Mercosul
Apresentação de Workshop “Jornada do Herói – diálogo com nossa força interior” – baseado no Mahabharata e tendo Arjuna como herói – tradição hinduísta.- Novembro de 2005.

Apresentação de Conto: Os Banhos de Bâdgerd
Instituto Anthropos, ateliê de Lígia Diniz - Dezembro de 2005

Apresentação no Corpo-Coral
Vivência de canto devocional - Dezembro 2005.

VI Congresso de Arteterapia
Facilitação de workshop “Deusas Afro-Brasileiras”. - Vitória-ES – Setembro de 2004.

I Fórum de Terapias Expressivas
Facilitação de Oficina sobre Cultura Afro-Brasileira. - Dezembro de 2004.

Simpósio Internacional “Escrever a vida – novas abordagens de uma teoria da autobiografia”
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – USP - Universidade de São Paulo
Comunicação: As linhas de si de Olaudah Equiano – Mesa: Autobiografia e Negritude
20–22 de setembro

I Semana de História Política – PPGHIS-UERJ
Comunicação: “Pequeno Histórico de uma pesquisa: as linhas de Olaudah Equiano”
9 a 12 de Agosto de 2005

I Semana de História Política – UERJ - Novembro de 2004;

XI Encontro Regional de História ANPUH – “Democracia e Conflito”
Com Comunicação apresentada - Outubro de 2004 Com Comunicação apresentada


CURSOS, CONGRESSOS, WORKSHOPS, SIMPÓSIOS/SEMINÁRIOS:

IX Congresso de Arteterapia - São Paulo - 8 a 12 de outubro de 2010

Dança-Ritual-Terapia - Ministrado pelo Psicólogo, Arteterapeuta e Psicoterapeuta Corporal Paolo Malvarosa. Maio e Agosto de 2009.

I Simpósio Brasileiro Corpo e Arte
ABRAPO-CEBRAFAPO-Incorporar-te – Rio de Janeiro
Participação em palestras e oficinas como ouvinte. - Novembro de 2008.
Mini-curso Dança-Ritual-Terapia - Com Paolo Malvarosa

I Simpósio Brasileiro Corpo e Arte - ABRAPO-CEBRAFAPO-Incorporar-te – Rio de Janeiro
Novembro de 2008.

VIII Congresso Brasileiro de Arteterapia – Arteterapia: Conhecer e Reconhecer. Participação em palestras e oficinas. - Canela/RS - novembro de 2008 – 35 horas.

VII Encontro de Artes & Terapias – IV Encontro Internacional
Participação em oficinas e palestras. - Rio de Janeiro - agosto de 2008 – 12h.

Oficina de Formação na Metodologia Telecurso
Fundação Roberto Marinho - julho 2008 e janeiro de 2009.

IX Congresso Mundial de Tradição e Cultura Yorubá – Orixá World
01 a 06 de agosto de 2006

Workshop em Canto Devocional com Sílvia Nakkach
Espaço de Alba Lírio – 2007.

Workshops em Canto Devocional com Alba Lírio
Participação em apresentação do Corpo-Coral, canto-vivência corporal-teatro em dezembro de 2006, culminando o processo.

I Encontro de Arteterapeutas do Mercosul
Participação como ouvinte em palestras e oficinas - Novembro de 2005 – Rio de Janeiro.

Evento Jung: C.G.Jung , um encontro com si -mesmo.
Bases teóricas da Psicologia Analítica.
Com o Prof. Walter Boechat, psiquiatra, Analista Junguiano e coordenador do Curso de
Pós – Graduação do IBMR. - 5 de julho a 16 de agosto de 2005

VI Congresso Brasileiro de Arteterapia
Participação em palestras e oficinas.
Vitória-ES – setembro de 2004.

I Fórum de Terapias Expressivas
Participação em palestras e oficinas.
Dezembro de 2004

III Encontro de Arte & Terapias
Participação em palestras e oficinas.
Julho de 2004

V Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História
Promovido pelo GT-Ensino de História da ANPUH, UERJ, UFRJ, PUC-Rio
26 a 29 de Julho de 2004 na UERJ

I Encontro e Artes & Terapia
Participação como ouvinte em palestras e oficinas.
Setembro de 2003

Curso de Introdução à Arteterapia com Angela Philippini
Clínica Pomar - Proposta de Orientação Multiprofissional Arte e Realidade
janeiro de 2003.

Geo-filosofia do Século XX
Os Pensadores;

V Congresso Afro-Brasileiro: Atualidades Negras
Salvador - Bahia;

II Encontro de História - UFF - Universidade Federal Fluminense

Simpósio Internacional sobre História e Cultura
PUC-RJ;

Africanidades – temáticas africanas e afro-brasileiras
UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Antropologia, arte e diversidade
Dimensões da Cultura Indígena:Etnologia e História Indígena
Puc-Rio

Curso de Extensão em Geografia da Religião
Com Dra. Zeny Rosendahl

UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro
II e III Simpósio sobre Cultura e Religiosidade
Participação como organizadora.
UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Olaudah Equiano - meu estudo no Mestrado






Olaudah Equiano afirma ter nascido em 1745, em terras igbo, onde hoje seria território nigeriano. Ele luta por essa identidade, que inclusive é questionada publicamente. Reforça este “lugar de memória”, pois tal elemento é sua herança como homem negro e constitui o sentimento de pertencimento, parte fundamental na construção da persona africana do gentleman Gustavus Vassa. [1]Em seu livro autobiográfico, publicado em 1789, ele se revela como filho predileto de família nobre, um trabalhador árduo, um homem apreciador das artes e da civilização, um aprendiz incansável, um religioso fervoroso, um defensor da liberdade para si e para seus conterrâneos, um aventureiro e um africano. E quem Olaudah chama de conterrâneos? Pessoas de sua etnia, africanos como um todo e os próprios britânicos. Equiano foi escravizado aos 10 anos aproximadamente, raptado nas cercanias de sua casa, levado à América do Norte, depois ao Caribe e finalmente para Inglaterra - terra que abraçou e que considerava também sua no fim da vida. O nome Gustavus Vassa foi imposto em tenra idade, tendo ele desembarcado na Inglaterra com essa marca.

Ele parte do “país” igbo, relatando costumes e práticas de seu grupo étnico, reafirmando sua humanidade – ali nasce Olaudah. Passa pela sua escravização, narra detalhadamente o processo da chamada Redenção – ou seja, a compra da liberdade por esforços próprios – e a luta na causa abolicionista, motivo que ele pontua como primordial na decisão de narrar-se – unindo-se, portanto, a Gustavus Vassa.Na verdade, um autobiógrafo tem, como todos nós, seu “eu” interno, que possui uma história. Os elementos são aqueles vividos pessoalmente, acontecimentos que acometeram seus diversos grupos sociais - seus conterrâneos africanos e seus conterrâneos britânicos - e constituem a memória de Olaudah, dando-lhe forma e conteúdo.

Ainda no início do século XVIII, havia poucos questionamentos públicos sobre a extinção da escravidão: a propriedade e o comércio de escravos era integral à economia comercial que assegurou a grandiosidade britânica.[1] Porém, em pouco mais de cinqüenta anos, o cenário sócio-econômico e político mudou e estes questionamentos começaram a tomar vulto. As primeiras ações para abolir o tráfico, aqueceram muitos debates e o movimento abolicionista ia se tornando um intento internacional. As investigações que vinham sendo efetuadas sobre o comércio de almas e as condições da escravidão começaram em 1783, alcançando ápice em 1792. Não é preciso lembrar que Olaudah escreveu exatamente neste período. Sua autobiografia, publicada por meio de subscrições, constituía uma parte do grande esforço panfletário pelo fim do tráfico. A narrativa vinha acompanhada por cartas, artigos de jornais e outros escritos, inseridos pelo autor para testar e atestar sua credibilidade. Portanto, os panfletos, poemas, ensaios sobre o tráfico entre 1780 e 1792, via de regra, se referem às teorias que já vinham prevalecendo sobre a cor, capacidade mental e civilidade.

Olaudah Equiano parecia ter plena consciência da rede internacional do abolicionismo e participava ativamente dela. Seu livro foi um instrumento dessa trama, junto com tantos outros intentos de mostrar a escravidão como um ato vil e um “mau negócio”. A prática de Olaudah e sua intenção de construir crescente credibilidade engendraram-se a partir de suas “pinturas da memória”, que delinearam matizes e traços num ondular entre pessoal e social. Há duas tônicas fundamentais em seu texto: a liberdade e a espiritualidade. As outras predominâncias textuais são a própria leitura, pela via da sensibilidade e civilização[2]; a capacidade industriosa, que retrata esforço contínuo em busca dos objetivos e o tema da compleição e da afirmação da capacidade do homem negro.

A auto-imagem de Olaudah Equiano – o Africano – não está isenta de negociação e transformação em função da alteridade e das próprias necessidades do ambiente no qual viveu. Ele provavelmente respirava e vivia toda discussão de seu tempo sobre a liberdade, moldada não somente em preceitos cristãos, mas também por disputas políticas.[3] A narrativa representa aquilo que Olaudah gravou, recalcou, excluiu, relembrou e é, como afirma Michael Pollack, o resultado de um trabalho de organização, como é toda autobiografia de cunho político. Os elementos que ele escolhe para se auto-retratar fazem todo o sentido e dão a perfeita ilusão de uníssono, estando diretamente ligado aquilo que ele traz e constrói como crença, portanto constituinte de sua identidade individual e coletiva. “A autobiografia supõe uma cultura que faz parte da expressão do “eu”” [4], portanto, implica em um envoltório social que permite e justifica sua forma e sua urgência. Num certo sentido está também impregnada de uma idéia de testemunho, de se transformar numa proposta de visão sobre uma dada situação desenrolada num determinado tempo e lugar.

A autobiografia seria uma resposta do indivíduo que se constrói no sentido contextual e pessoal; contextual porque o século XVIII é marcado, pela transformação da pergunta “O que é uma pessoa?” em “Quem sou eu?”. Primeiro Olaudah se afirma como pessoa, parte integrante da “criação” no sentido bíblico e depois, se constrói nos interstícios da pergunta “Quem sou eu?”, com indivíduo moderno. Segundo Im Hof, a Ilustração não significava somente “treinar um novo homem, mas um homem melhor, e “talvez seja por este motivo que a doutrina da virtude tenha ressurgido nesse período”[5]. Portanto, as virtudes individuais, o sentimento religioso, a filantropia, juntamente com a humildade, a moderação e a indústria (leia-se esforço pessoal) preenchiam as bases para o comportamento no contexto social, na família e no Estado.[6] Portanto, Equiano vivenciou muita das tensões inerentes ao cenário social e cultural das últimas décadas do século XVIII, inclusive aquelas que dizem respeito ao mercado editorial na Grã-Bretanha. Sobretudo, as inspirações e instigações que levavam o indivíduo a questionar-se e construir-se. A prática sócio-cultural da publicação de obras inseria-se em uma perspectiva maior, embora não se possa negar o intuito pessoal do autor. Equiano era um patriota, no sentido mais estrito do termo em relação ao século XVIII[7]. Ou seja, aquele indivíduo que deseja ser visto como possuidor de uma visão cosmopolita, livre de preconceito e engajado em atividades práticas para o benefício da comunidade como um todo.

O verdadeiro patriota deixaria sua marca pela credibilidade de seu exemplo. A Grã-Bretanha sofreu transformação profunda durante o século XVIII, em termos políticos, econômicos e mentais. A Ilustração Britânica, segundo os autores que a estudam, não foi apenas uma questão de rupturas epistemológicas, mas uma expressão de novos valores mentais e morais, novos cânones de gosto, modos de sociabilidade e visões sobre a natureza humana[8]. Segundo Roy Porter, o comércio de livros passou a ter peso na economia inglesa a partir do século XVIII, gerando grande circulação de vários tipos de literatura. O escritor teria um status, um envoltório que unia suas relações com o seu público leitor específico e a rede de contatos que tornava possível seu reconhecimento. O negócio de escrever e ler eram dois lados de uma moeda no capitalismo editorial. Basta lembrar que, na Inglaterra foram publicados cerca de 6 mil títulos em 1620, número que subiu para 21 mil durante a primeira década do XVIII e chegou a aproximadamente 56 mil na última[9].

A “The interesting narrative of Olaudah Equiano or Gustavus Vassa – The African – written by himself” de Olaudah Equiano foi um entre os muitos livros que participaram deste “boom” no mundo das letras impressas. O autor parece também mover-se continuamente entre os diversos nomes, representativos de sua experiência. O Olaudah africano, o Gustavus britânico, o “eu mesmo” que se constrói e o autor que mantém sua obra em constante renovação por meio das disputas políticas que explicita nas cartas publicadas antes da narrativa propriamente dita. Seu movimento é de expansão, de constante revisão de si -único e singular, o sujeito moderno - dentro dos pressupostos organizadores que seu meio social solicitava. O escritor de memórias não deixa de ser um criador, usando elementos de outros textos, lançando mão dos recursos retóricos que pudessem convencer seu leitor de sua indústria e de seu esforço para trilhar um caminho de ascensão.[10] Para além disso, a filosofia ilustrada que começou, então, a prestar atenção à psyche individual, emergiu da sinergia entre a filosofia de Locke e os modelos de subjetividade tocadas em gêneros menos rígidos como romances, belas letras, diários, cartas. De acordo com Porter, esta foi a dialética que teve implicações chaves para o individualismo emergente, a consciência de si, definição de si e o aperfeiçoamento de si.

A palavra autobiografia com esse formato e nesse sentido de apresentar o eu “descoberto” apareceu justamente naquele período. O gênero puritano tradicional de exame espiritual foi suplementado por modelos mais seculares de confissão. E o conceito chave para esse “eu” interior na Ilustração tardia era a sensibilidade.[11]Romances e narrativas humanitárias seriam um produto também desses conflitos, e estariam voltados em sua grande parte aos dilemas sociais e questões morais – “os mistérios da consciência foram psicologizados e filosofados em autobiografias e diários, bem como na ficção”[12].

Assim, o Olaudah Equiano que se revela tem sua individualidade preenchida, provocada e confrontada com as respectivas sociabilidades, bem como com aprendizados, recusas e crenças. Além disso, um livro, qualquer que seja seu intento, dialoga com a realidade presente. E o autor, que é um intérprete dessa realidade, muitas vezes não está comprometido com uma verdade no sentido restrito, mas com aquilo que sua historicidade o permite ver como tal. Percebe-se Equiano como um indivíduo simultaneamente uno e múltiplo, que experimenta temporalidades diversas[13]. Na perspectiva de uma linguagem política, que envolve diversos tipos de fontes, Olaudah assim se apresenta, ele não poderia ser coerente, entendendo-se coerência como linearidade. Uma vida não é linear, trata-se de uma sucessão nem sempre ordenadas das mais diversas possibilidades. As idéias dos autores, inclusive daqueles que escrevem sobre si, refletem a ambivalência das linguagens que lhes informam e impingem significados a tais expressões.[14]

A autobiografia pode ser vista como uma forma de justificativa e invenção de um novo sentido. O íntimo do indivíduo seria a fonte da verdade, de onde vem a organização do mundo. Por esse motivo, Contardo Calliagaris considera a escrita de si crucial da modernidade, uma necessidade cultural, no qual o sujeito subordina a verdade à sinceridade. O ato autobiográfico seria algo culturalmente e historicamente datado – um fenômeno moderno e ocidental. Como Calliagaris aponta “É uma escrita autobiográfica que implica numa cultura na qual o indivíduo situe sua vida acima da comunidade a qual pertence... cultura essa na qual importe ao indivíduo sobreviver pessoalmente na memória de outros.”[15]Cada autor de autobiografia, portanto, remontaria os elementos da vida individual e reagruparia num todo compreensivo. A autobiografia, segundo Georges Gusdorf, é devotada à defesa, glorificação, causa política... é limitada ao setor público da existência. [16] Esse esforço recomporia e reinterpretaria uma vida em sua totalidade, justamente porque obriga o indivíduo se situar “no que é” na perspectiva do que “eu tenho sido”.

Portanto, para este autor, trata-se do substrato da experiência.[17]Olaudah se procura através de sua história e se afirma a cada nova aventura... “a autobiografia como um trabalho de arte e ilustração... aquilo que o indivíduo acredita e deseja ser e ter sido”[18] De um modo geral, Equiano responde à pergunta “como me tornei quem eu sou?” [19]. Para tanto, ele narra sua infância, o aprisionamento, a vida como escravo, os seus costumes e a sua cultura – africana e britânica. Ele tenta mostrar-se ao leitor como um homem de conquistas, que se encontra na encruzilhada entre a efervescência dos debates contra o tráfico atlântico de almas e as possibilidades latentes desses discursos contra a escravidão: Importante para o historiador seria exatamente a ótica assumida pelo registro e como seu autor a expressa... Ele se posiciona como um homem de refinada moral cristã, um africano ilustrado de sentimentos pautados pela polidez britânica. Um homem que reconhece os costumes de seu grupo de origem e os valoriza. Não nos esqueçamos, porém, de que as autobiografias e os outros relatos escritos não são atos inocentes da memória, mas antes tentativas de convencer, formar a memória de outrem... quando lemos narrativas de memórias, não lemos a própria memória mas suas transformações através da escrita[20].

As linhas escritas por Equiano introduzem diversos personagens, inclusive as personas que ele mesmo cria, evidenciando que o discurso autobiográfico implica num desejo de reconhecimento que não existe no discurso de ficção. Ou seja, àquele que escreve sobre si pretende a aprovação não somente do seu texto, mas para sua pessoa e para a sua vida. Trata-se de um ato de convencimento. Na autobiografia uma “coleção de vozes” e de “memórias” relacionais se misturam. A polifonia de sujeitos se entrechocam, talvez porque ele seja um híbrido em qualquer lugar que vá. Os valores nos quais as representações se assentam são variáveis, suas significações dependem dos grupos sociais nas quais estão inseridas. Os leitores são fundamentais para Olaudah, principalmente porque ele escreve um livro sobre si, deixando de fora tudo que pudesse confundir ou desviar, é um discurso engajado, simboliza e impinge significado. O conteúdo representativo no fenômeno cognitivo que Olaudah expõe, abarca linguagem, discurso, práticas, de forma que constrói um diálogo entre o Equiano africano e o Gustavus englishman; o religioso e aquele que se pretende no pressuposto racional; o Olaudah homem de virtudes que transita entre a sociedades branca e negra que, por vezes, o aceitam e o rejeitam. Tal livro, tal panfleto político, possui objetivos claros, não havendo lugar para grandes elucubrações emocionais. Entretanto, não é um relato frio e distante. São as suas realizações, que o autor credita como valorosas, que marcam o sentido de contar-se, porque nesse recontar há construção e possibilidade. Como intento político tido e vertido para obter escuta para uma causa política, seu discuros teria de estar investido de autoridade e veracidade. E Gustavus Vassa ou Olaudah Equiano reuniu todos os esforços nessa empreitada.





Op. Cit. p. 358.

A acepção da palavra civilizar no século XVI seria aquela de abrandamento de costumes e maneiras dos indivíduos, nas idéias de Montaigne é essa idéia que surge. No sentido moderno, a palavra civilização se entrelaça com a idéia de progresso. Na Inglaterra, influenciado por Adam Smith, Fergunson foi o primeiro a usar a palavra neste sentido em 1752. Civilização passaria a ser um processo e não um estado, posicionado em sentido antinômico à natureza, selvageria, barbárie. Polir é civilizar os indivíduos, suas maneiras, sua linguagem. (STAROBINSKI, Jean. As máscaras da civilização: ensaios. São Paulo: Cia das Letras, 2001. p. 16)

POLLACK, Michael. op.cit. pg. 5.

LEVILLAIN, Philippe. Os protagonistas: da biografia. In: RÉMON, René(org). Por uma história política. Rio de Janeiro: Ed UFRJ/FGV, 1996. p. 141-185.

op. cit. p. 213.

Cf Im Hof.

O conceito de patriota que está aqui empregado inspira-se em IM HOF, Ulrich. The Enligtenment – an historical introduction. Oxford: Blackwell Publishers, 1997, p. 152.

PORTER, Roy. Enlightenment. London: Penguin Books, 2000.

op. cit. p. 73.

ALBERTI, Verena. Literatura e autobiografia: a questão do sujeito na narrativa. Estudos Históricos, Rio de Janeiro vol. 4, n. 7, 1991, p. 66-81.

op. cit. p. 278.

op.cit. p. 291.

GOMES, Ângela de Castro (org). Escrita de Si, escrita da História: a título de prólogo. In: GOMES, Ângela de Castro (org). Escrita de Si, escrita da História. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. p. 13.

BEVIR, Mark. Mind and method in the history of ideas. History and Theory. Studies in the Philosophy of History. Middletown, 36(2): 167-189, 1997. p. 170.

CALLIAGARIS, Contardo. Verdades de autobiografias e diários íntimos. Estudos Históricos. Rio de Janeiro: v. 11, n. 21, 1998. p. 5.

GUSDORF, Georges. Conditions and limits of autobiography. In: OLNEY, James. (org). Autobiography: essays theoretical and critical. Princeton, New Jersey, USA: Princeton University Press, 1980. Pag. 28-49. p. 36.

op. cit. p. 38.

op. cit.p. 45.

DELON, Michel. Propôs recueillis avec Philipe Lejeune – Pour l´autobiographie. Magazine Littéraire – Les écriture de moi, Paris, n. 409, p.20-23, Mai 2002.

BURKE, Peter. Variedades de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. p. 74.

POLLACK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, vol. 5, n. 10, 1992, p. 200-212. p. 201.

Op. Cit. p. 358.


Atenção 2

Luz





Delicadeza